
Por Jun Yassuda Júnior
Entre os espetáculos apresentados no FIT 2026, “Boi Material” se destaca por provocar o público sem recorrer a respostas fáceis. Com dramaturgia e direção de Pedro Kosovski, a montagem parte do ambiente de uma exposição agropecuária para discutir poder, exploração, consumo e a relação da sociedade com a própria ideia de progresso. O resultado é uma obra que exige atenção do espectador e recompensa quem aceita embarcar em suas múltiplas camadas de interpretação.
O elenco entrega uma atuação coletiva de alto nível, mas é impossível não destacar a presença de Andrea Capelli, que domina a cena com precisão, intensidade e um controle impressionante das mudanças de registro exigidas pelo texto. Sua interpretação transita entre ironia, força e vulnerabilidade com naturalidade, tornando-se um dos grandes pilares da montagem. Ao seu redor, os demais atores sustentam um trabalho coeso, em que cada personagem contribui para construir o desconforto e as reflexões propostas pelo espetáculo.
A direção de Pedro Kosovski merece reconhecimento pela forma como organiza o caos aparente da encenação. A peça alterna momentos de humor ácido, deboche e crítica social sem perder o ritmo ou a clareza da narrativa. Um dos grandes méritos da montagem está na quantidade de metáforas e referências espalhadas pela encenação. Símbolos como o verde e amarelo, alusões à Rede Globo, à tradicional novela das 9 e até ao lendário Touro Bandido aparecem em diferentes momentos, sempre carregados de ironia e múltiplos significados. É justamente esse jogo de referências que torna a experiência tão instigante.

Para aproveitar plenamente o espetáculo, o espectador precisa chegar disposto a interpretar o que vê. “Boi Material” não entrega respostas prontas e, em muitos momentos, exige um repertório mínimo do universo pop e da cultura contemporânea brasileira para que boa parte das provocações seja compreendida. Quem acompanha acontecimentos culturais, políticos e referências da televisão, da música e do imaginário popular certamente perceberá camadas extras que enriquecem ainda mais a experiência.
Visualmente, “Boi Material” impressiona. A cenografia utiliza poucos elementos, mas cria imagens de enorme impacto simbólico, transformando o espaço cênico conforme a narrativa avança. A iluminação assinada por Luis Fernando Lopes é, talvez, um dos pontos mais brilhantes da montagem. A fotografia de palco impressiona pela precisão dos enquadramentos cênicos, pelo uso das sombras, dos recortes de luz e pela forma como cada cena parece cuidadosamente composta como uma obra visual. São imagens de grande força estética que permanecem na memória muito depois do fim da apresentação.

A trilha sonora original, a direção musical, os movimentos de cena e os figurinos completam uma encenação cuidadosamente pensada, em que todos os departamentos dialogam entre si. Nada parece gratuito. Cada escolha estética reforça a proposta da dramaturgia, fazendo de “Boi Material” uma das experiências mais provocadoras e tecnicamente refinadas desta edição do FIT. É um espetáculo que desafia, diverte, incomoda e convida o público a sair do teatro levando consigo muito mais perguntas do que respostas; exatamente como o grande teatro costuma fazer.
