Por Jun Yassuda Júnior
Confesso que “Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser”, da Cia. ÚNICA de Teatro, de Feira de Santana (BA), me conquistou antes mesmo da primeira fala.
Quando três jovens atores entraram em um ginásio cercado pela plateia em todos os lados, diante de uma cenografia minimalista formada apenas por tecidos suspensos que desciam do teto ao chão, minha primeira reação foi quase automática: que coragem.
Era uma escolha arriscada. Não havia grandes estruturas, efeitos tecnológicos ou cenários monumentais escondendo possíveis fragilidades. Tudo dependia deles. Do texto. Do corpo. Da voz. Da presença.
E eles sustentam tudo isso com uma segurança impressionante.
Vencedor do 36º Prêmio Shell de Teatro, na categoria Destaque Nacional, o espetáculo nasce da pesquisa da companhia sobre ancestralidade negra, tempo e existência, dialogando diretamente com as filosofias do Candomblé e com a estética do Teatro Preto de Candomblé. O resultado é uma obra que une teatro, música, dança e ritual sem jamais parecer panfletária.
Logo nos primeiros minutos, uma narração em off invade o espaço. O sotaque baiano não cria distância alguma do público rio-pretense. Pelo contrário. A musicalidade da fala embala a plateia e prepara o terreno para uma história que fala sobre tempo, juventude, racismo e futuro.
A sinopse apresentada pela companhia poderia resumir a trama como a história de três estudantes negros prestes a montar sua peça de formatura, buscando respostas junto a Iroko, Orixá do tempo. Mas a montagem vai muito além disso.
Ela pergunta, o tempo inteiro, quem tem direito ao próprio TEMPO(?).
Quem pode envelhecer?
Quem consegue simplesmente viver?
Há um momento em que uma voz pergunta:
“Quem disse que viver é fácil?”
A resposta vem quase imediatamente.
“A vida é difícil só para alguns.”
É ali que “Akoko Lati Wa Ni” deixa de ser apenas um espetáculo sobre três personagens e passa a dialogar diretamente com o Brasil.
Sem levantar a voz, o texto fala sobre racismo estrutural, imperialismo cultural e desigualdade. Em determinado momento, a expressão “vidas ceifadas” ecoa pelo ginásio e desmonta qualquer discurso confortável de que igualdade racial já seria uma realidade.
É impossível sair indiferente.
Outro aspecto que impressiona é o preparo físico dos intérpretes.
Na noite anterior, durante outro espetáculo do Festival, observei atores visivelmente cansados ao longo da apresentação. Aqui acontece justamente o contrário.
Júlia Lorrana, Ofámirô e Aninha Pinheiro parecem possuir uma energia inesgotável.
Correm.
Saltam.
Dançam.
Executam movimentos inspirados na capoeira.
Cantam.
Interpretam textos longos sem perder ritmo ou precisão.
Em muitos momentos, o espetáculo exige que os três permaneçam em cena praticamente sem descanso durante quase uma hora. O condicionamento físico acompanha a qualidade da atuação e transforma o corpo em mais uma ferramenta narrativa.
Os três demonstram uma maturidade artística rara para artistas tão jovens.
Há talento.
Há estudo.
Mas, principalmente, há um futuro gigantesco pela frente.
Se continuarem nesse caminho, dificilmente seus nomes permanecerão restritos ao circuito nordestino por muito tempo.
A dramaturgia também merece destaque pela inteligência com que constrói seus conflitos.

Enquanto os estudantes desejam contar suas próprias histórias, a professora insiste em empurrá-los para referências europeias já consagradas.
Ela quer Beckett.
Eles querem “Esperando Zumbi”.
Ela considera o rap incompatível com a dramaturgia.
Eles respondem justamente fazendo do rap uma ferramenta dramatúrgica.
Ela tenta transformá-los em figurantes de suas próprias histórias.
Em determinado momento, surge até a expressão “objetos de cena”, talvez uma das críticas mais duras de todo o espetáculo.
A professora torna-se quase uma representação de um pensamento acadêmico envelhecido, incapaz de compreender que novas dramaturgias negras já não pedem licença para existir. Ninguém mais, hoje em dia, precisaria pedir licença para existir. Ao menos, é o que se espera de um país democrático.
Esse embate talvez seja um dos momentos mais inteligentes da montagem.
Outro elemento fascinante é a presença constante de Iroko, Orixá associado ao tempo, à ancestralidade e à força vital.
O tempo aparece como personagem invisível.
Os jovens nunca parecem tê-lo.
Precisam correr.
Produzir.
Sobreviver.
Criar.
Enquanto Iroko lembra que alguns ciclos precisam simplesmente terminar para que outros possam nascer.
Há ainda uma delicadeza enorme na maneira como o espetáculo aborda a resistência.
Em determinado momento, sugere que talvez a maior resposta às agressões não seja o grito.
Mas a permanência.
A inteligência.
O diálogo.
A arte.
É um símbolo poderoso.
Também gostei muito do fato de o espetáculo utilizar diversos termos ligados aos terreiros de Candomblé sem transformá-los em notas de rodapé para facilitar a vida do espectador.
Quem não conhece aquela tradição talvez precise pesquisar depois.
E isso não é defeito.
É convite.
O teatro também serve para ampliar repertórios.
Poucas vezes uma montagem contemporânea conseguiu equilibrar tão bem reflexão política, ancestralidade, humor, música, dança e emoção.
Quando surge a expressão tão popular nas redes sociais – “Favela venceu” -, a peça parece responder imediatamente que ainda não.
Ainda há muito caminho pela frente.
Mas vencerá.
Pela inteligência.
Pela persistência.
Pela juventude.
E pela arte.
Ao final da apresentação, a companhia revelou que São José do Rio Preto foi a primeira cidade fora do Nordeste a receber o espetáculo.
Talvez não pudesse haver estreia nacional melhor.
O público respondeu como toda grande obra merece: de pé.
Longos aplausos encerraram uma apresentação que confirma duas certezas.
A primeira é que o Prêmio Shell não foi conquistado por acaso.
A segunda é que o FIT acerta em cheio quando aproxima o público paulista de companhias que, muitas vezes, permanecem distantes dos grandes centros do Sudeste. É justamente essa diversidade que faz um festival internacional cumprir sua função: ampliar horizontes, revelar novos olhares e lembrar que o melhor teatro brasileiro continua sendo produzido em todas as regiões do país.
Uma montagem vigorosa, inteligente e profundamente brasileira, conduzida por três jovens artistas que transformam o palco em um espaço de memória, resistência e futuro. Obrigado por virem.