Por Jun Yassuda Júnior
Entre os espetáculos desta edição do FIT, “Os Orixás”, do tradicional Giramundo Teatro de Bonecos, apresenta uma proposta que vai além do entretenimento. A montagem utiliza o teatro de animação para contar a gênese do mundo segundo a mitologia dos orixás, apresentando ao público elementos da religiosidade e da cultura africana de maneira respeitosa, didática e visualmente rica. Mesmo para quem não domina o tema, a peça desperta curiosidade e oferece uma oportunidade de conhecer parte de um universo que ainda é pouco explorado nos palcos brasileiros.

O maior mérito da montagem está justamente no texto e na forma como ele conduz a narrativa. Sem perder o caráter artístico, o espetáculo consegue ensinar enquanto emociona. A dramaturgia apresenta os orixás, seus símbolos e suas relações de maneira acessível, ainda que, em alguns momentos, a quantidade de personagens e referências possa exigir uma atenção maior do espectador. Para quem já possui alguma familiaridade com a cultura afro-brasileira, a experiência se torna ainda mais rica. Para os demais, a sensação é de assistir a uma verdadeira aula, conduzida com sensibilidade e respeito.
Visualmente, a criatividade do Giramundo continua impressionando. Os bonecos mantêm a identidade que tornou a companhia uma referência internacional, enquanto as projeções e a trilha sonora renovada ajudam a construir um universo de grande beleza estética. Algumas cenas revelam soluções cênicas extremamente inventivas, como o momento em que as folhas são cortadas para encontrar a erva procurada, transformando objetos simples em imagens carregadas de significado. A entrada de Ogum, por sua força visual e simbólica, talvez seja o momento mais marcante de toda a montagem.
Outro acerto está na utilização das projeções e da narração em off, que funcionam como fio condutor da história e ampliam a dimensão poética do espetáculo. Ainda assim, fica a impressão de que a experiência poderia ganhar ainda mais potência caso parte desse texto fosse interpretada ao vivo por atores em cena. É compreensível que a narração gravada ofereça segurança aos marionetistas, que precisam concentrar grande parte da atenção na manipulação dos bonecos. No entanto, ouvir vozes projetadas diretamente do palco acrescentaria espontaneidade, presença e aquela energia própria do teatro ao vivo, aproximando ainda mais o público da narrativa.

Apesar da qualidade artística da montagem, alguns detalhes técnicos acabam chamando atenção de forma negativa. A tela de tecido posicionada entre o palco e a plateia, utilizada para receber projeções, apresentava remendos visíveis que comprometiam parte do acabamento visual de uma produção tão cuidadosa. Também houve momentos em que foi possível ouvir as falas dos próprios marionetistas durante a manipulação dos bonecos, quebrando a ilusão cênica construída ao longo do espetáculo. Outro aspecto que provoca reflexão acontece no desfecho, quando o único ator humano que surge em cena para entregar o bebê ao casal é um homem branco. Dentro de uma obra dedicada à valorização da mitologia, da ancestralidade e da cultura africana, essa escolha parece destoar simbolicamente da proposta construída até então.
Ainda assim, “Os Orixás” confirma por que o Giramundo permanece como uma das maiores companhias de teatro de bonecos do país. A combinação entre texto, música, animação, projeções e pesquisa cultural resulta em um espetáculo sensível, educativo e artisticamente consistente. Mais do que apresentar personagens da mitologia africana, a montagem convida o público a conhecer uma tradição fundamental para a formação da cultura brasileira. Mesmo com pequenos problemas técnicos e algumas escolhas cênicas discutíveis, trata-se de uma obra relevante, capaz de informar, emocionar e ampliar o olhar do espectador sobre um universo muitas vezes cercado por desconhecimento e preconceito. É um espetáculo que merece ser visto justamente por transformar o palco em espaço de aprendizado, reflexão e encantamento.