Por Jun Yassuda Júnior
Há livros que parecem resistir naturalmente à adaptação. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, é um deles. Com pouco mais de 300 páginas, uma narrativa construída em fluxo contínuo, personagens sem nomes próprios e um texto profundamente filosófico, transportar essa obra para o teatro já é, por si só, um gesto de enorme coragem e ousadia.

Fui assistir à montagem do Grupo Galpão carregando inevitavelmente duas referências: a do leitor apaixonado por Saramago e a do espectador que conhece a adaptação cinematográfica dirigida por Fernando Meirelles, baseada no roteiro de Don McKellar. Talvez por isso tenha entrado na sala com certo receio. Afinal, como condensar uma das obras mais importantes da literatura contemporânea em duas horas e meia de espetáculo?
A resposta encontrada pelo grupo mineiro foi interessante em sua concepção. Em vez de tentar competir com o cinema, a direção amplia a experiência teatral ao romper constantemente a quarta parede. Os nove atores em cena logo deixam de ser apenas nove quando espectadores são convidados ao palco para integrar a narrativa, assumindo o papel de novos cegos que chegam ao manicômio. A proposta dialoga diretamente com a experiência imersiva apresentada pelo FIT nesta edição e reforça a ideia de que ninguém está totalmente protegido daquela epidemia moral criada por Saramago. Afinal, quem tem moral em Rio Preto hoje?
É, sem dúvida, uma das decisões mais inteligentes da adaptação.
Mas é justamente depois desse bom começo que o espetáculo passa a enfrentar dificuldades.
A principal delas está no ritmo. A montagem se mostra excessivamente arrastada. Enquanto outras produções vistas nesta edição do FIT conseguem revisitar clássicos sem perder sua essência, esta parece permanecer presa a uma linguagem bastante tradicional. Em diversos momentos, a sensação é de que a peça apenas narra acontecimentos em terceira pessoa, exigindo do espectador uma atenção absoluta a cada palavra pronunciada para acompanhar a construção dramática.
Essa escolha talvez agrade aos leitores mais fiéis da obra, mas também torna a experiência menos pulsante do que poderia ser.
Curiosamente, trata-se de uma decisão ousada para o Festival Internacional que, em sua programação deste ano, apostou tanto em linguagens contemporâneas. A adaptação parece seguir um caminho inverso: prefere preservar a solenidade do texto a reinventá-lo.
Se a narrativa por vezes desacelera, a sonoplastia e a trilha sonora fazem justamente o contrário. O que anima a plateia.
São elas que impedem que o espetáculo mergulhe completamente na monotonia. O desenho sonoro ajuda a criar tensão, amplia a sensação de desorientação e oferece atmosfera para uma encenação que, visualmente, opta por soluções bastante discretas.
E aqui aparecem algumas limitações da montagem.
O figurino é simples, quase excessivamente econômico. A cenografia aposta em poucos elementos e permanece sempre em terreno seguro. Não há grandes riscos estéticos nem imagens capazes de permanecer na memória do espectador. Faixas para tampar a visão deixam a obra ainda menos interessante, caindo no clichê.
Entretanto, mesmo dentro dessa simplicidade, uma solução chamou minha atenção: a movimentação dos refletores instalados sobre tripés com rodas, deslocados pelos próprios atores durante a encenação. O recurso lembra, curiosamente, a operação de iluminação de programas de auditório e cria uma dinâmica interessante de transformação dos espaços cênicos sem recorrer a grandes cenários fixos.
É uma criatividade discreta; e eficiente.
Outro aspecto que acabou chamando atenção negativamente foi a própria energia do elenco.
Os atores parecem exaustos durante boa parte da apresentação. Não se trata de falta de técnica – longe disso. O Grupo Galpão possui trajetória suficiente para dispensar apresentações. A impressão, porém, é de um elenco que executa uma longa maratona física sem conseguir transmitir ao público a intensidade emocional que a obra exige. Em comparação com outras montagens vistas no FIT, faltou aquele ímpeto, aquela vitalidade que faz o palco parecer vivo mesmo nos momentos de silêncio. O palco do FIT não é só mais um palco para os rio-pretenses; o palco do FIT é O PALCO. Esperava-se mais entrega. Daquela que vem de dentro e faz o público se emocionar pela encenação, e não só por um texto clássico.
E talvez isso fique mais evidente justamente na sequência que deveria representar o grande ponto de ruptura emocional da história.
A relação entre o Médico e a Rapariga dos Óculos Escuros sempre foi uma das passagens mais dolorosas do romance. No filme, a cena é desconfortável, intensa, quase indigesta. No palco, porém, ela surge de forma superficial. O impacto emocional praticamente desaparece. Não há química (nem a falta dela, no caso) entre os atores. Infelizmente.
Da mesma forma, a reação da Mulher do Médico – única personagem que continua enxergando quando todos mergulham na cegueira branca – também perde força dramática. Espera-se dela uma explosão de sentimentos diante da traição, mas a interpretação segue por um caminho excessivamente contido, quase apático, diminuindo o peso de uma das relações mais importantes construídas por Saramago.
Ainda assim, há um momento capaz de devolver parte da potência da obra.

A cena em que as mulheres limpam a personagem violentada talvez seja o instante em que a adaptação finalmente alcança a densidade moral do romance. É ali que a solidariedade, a resistência e a humanidade sobrevivem em meio ao colapso da civilização. A sequência resgata parte da emoção que muitos leitores/espectadores esperam encontrar.
Ao redor dela surgem, naturalmente, temas como patriarcado, machismo, abuso de poder, autoritarismo e violência. Entretanto, essas reflexões aparecem em trechos quase contáveis, quase que protocolar, quando poderiam ganhar muito mais profundidade dentro da adaptação.
No fim, fica a sensação de estar diante de um espetáculo respeitável, extremamente difícil de realizar e tecnicamente competente, mas que talvez tenha escolhido o caminho mais seguro justamente ao adaptar um dos romances mais provocativos da literatura moderna.
Para quem nunca leu Saramago, a montagem provavelmente despertará curiosidade pela obra original.
Para quem já conhece o livro, será inevitável comparar cada cena com a força das páginas – e também com o cinema.
Essa talvez seja uma batalha impossível de vencer.
Não porque o Grupo Galpão fracasse em sua missão, mas porque Ensaio Sobre a Cegueira talvez pertença àquela raríssima categoria de livros cuja maior encenação continua acontecendo dentro da imaginação do próprio leitor.