Por Jun Yassuda Júnior
Assim que a sessão de Kamikaze, apresentada na noite deste domingo, no Teatro Nelson Castro, terminou, fui em silêncio para o carro. Achei que minha companhia não tivesse percebido as lágrimas em meu rosto. Há muito tempo isso não acontecia. Chorar em uma peça de teatro? Onde já se viu? Foi a pergunta que me fiz durante todo o caminho de volta. E, enquanto tentava entender o motivo daquela emoção, percebi que a peça parecia ter sido escrita sobre a minha própria infância. A genialidade do texto, porém, revelou-se justamente quando notei que minha companhia também chorava. E ela sequer tem ascendência japonesa, diferente de mim.

Minha infância também se passou pelo Kaikan (Tradicional clube japonês de Rio Preto). Minhas tias também disputavam produtos de limpeza nas gincanas divertidíssimas que reuniam famílias inteiras. Algumas lembranças eram tão específicas que, por instantes, deixei de ser espectador para me tornar personagem daquela narrativa. Foi então que compreendi que o texto autobiográfico de Homero Kaneko não busca contar apenas a história de uma família japonesa. Ele encontra o universal justamente no íntimo. Quanto mais pessoal se torna, mais facilmente o público se reconhece.
O título Kamikaze conduz o espectador a imaginar um caminho completamente diferente daquele que a montagem realmente percorre. A surpresa é uma de suas maiores virtudes. Aos poucos, percebemos que não estamos diante de uma peça sobre guerra ou heroísmo, mas sobre algo muito mais devastador: o desaparecimento das memórias e a necessidade humana de pertencer a uma história. Afinal, todos nós, cedo ou tarde, enfrentaremos perdas, esquecimentos e a tentativa de reconstruir quem somos a partir das lembranças que resistem.
A primeira grande dor da montagem surge quando o personagem percebe que a memória que guardava sobre o túmulo do avô simplesmente não correspondia à realidade. É um momento de enorme delicadeza. As recordações parecem ser trituradas diante do público, como os pequenos papéis picados que ocupam o palco desde antes do espetáculo começar. A imagem é simples, mas de uma potência simbólica admirável: as memórias podem desaparecer sem pedir licença, fragmentadas pelo tempo, pela idade ou pelo esquecimento.
Homero Kaneko entrega uma atuação de enorme sensibilidade. Antes mesmo do início oficial da peça, já está em cena, varrendo aqueles fragmentos de papel enquanto recebe o público com naturalidade. Ali, sem qualquer anúncio, a quarta parede deixa de existir. O espectador passa a fazer parte daquele universo desde o instante em que entra na sala. É uma escolha de direção inteligente e um trabalho de ator que demonstra absoluto domínio da presença cênica, estabelecendo uma relação íntima e honesta com quem está na plateia.
Outro grande acerto está no equilíbrio entre humor e emoção. Homero utiliza piadas aparentemente simples, brincadeiras quase ingênuas e situações de fácil identificação para aliviar o peso dramático que lentamente se acumula. É justamente essa leveza que torna os momentos mais dolorosos ainda mais impactantes. Quando o público percebe, já baixou a guarda. E é nesse instante que a peça toca onde mais dói: no medo de perder as próprias memórias e, junto delas, a própria identidade.
O texto também reserva espaço para discutir o preconceito contra pessoas de origem oriental e o chamado amarelismo. Talvez esse seja o aspecto menos aprofundado da montagem, aparecendo de forma mais discreta do que se imaginava. Ainda assim, sua presença é importante porque não há a intenção de transformar a peça em um manifesto. O centro da narrativa permanece sendo a busca de um neto por seu passado, por suas raízes e pelo direito de compreender quem é em uma sociedade que frequentemente reduz descendentes japoneses a estereótipos.
Kamikaze é um daqueles espetáculos raros que continuam acontecendo muito depois do último aplauso. Ele permanece durante o trajeto de volta para casa, nas conversas, nas lembranças despertadas e até nas lágrimas que insistimos em esconder. Saí do teatro acreditando que estava emocionado porque a peça falava da minha história. Voltei para casa entendendo que ela falava da história de todos nós. Afinal, independentemente da origem de cada espectador, todos carregamos memórias que tememos perder e uma necessidade profunda de saber de onde viemos para entender, enfim, quem somos.