Por Jun Yassuda Júnior
Há espetáculos que precisam ser compreendidos. Outros precisam ser sentidos. “Republikkk ou Encruzilhada Não É Beco“, do REC Instituto, apresentado no FIT Rio Preto, pertence a esta segunda categoria. É um espetáculo que não pede apenas atenção do espectador; exige memória, disponibilidade emocional e coragem para revisitar um dos períodos mais dolorosos da história recente do Brasil.
Talvez por isso a peça tenha me atingido de maneira tão particular.

Sou de família católica e a Folia de Reis sempre esteve presente na minha formação. Cresci vendo companhias de reis cantando na varanda da casa de familiares, ouvindo versos improvisados, sonetos e poemas que misturavam religiosidade popular e cultura caipira. Quando os atores recebem o público ainda na fila do ginásio do Sesc, percebi que o espetáculo já havia começado antes mesmo de qualquer pessoa ocupar sua cadeira.
Cronologicamente, porém, a narrativa se inicia quando uma companhia de Folia de Reis chega a uma propriedade rural. Um longo monólogo conduzido pelo sanfoneiro estabelece imediatamente o tom da dramaturgia escrita por Angela Ribeiro e Hercules Morais. Quem conhece minimamente esse universo reconhece na hora o ritmo das falas, a construção poética dos versos e a musicalidade típica dos foliões. O texto respeita essa tradição e faz dela uma poderosa ferramenta narrativa.
A cenografia de Clara Lindorfer merece destaque desde os primeiros minutos. O chão completamente coberto por palha remete a uma terra seca, quase um cerrado castigado pelo sol, como se o fogo pudesse começar a qualquer instante. Ao fundo, uma árvore sem folhas acompanha praticamente toda a apresentação, enquanto blocos de feno assumem a função simbólica de túmulos. Poucos elementos constroem tantas imagens com tamanha eficiência.
Sob a direção de Hercules Morais, a montagem parece empenhada em retirar o espectador de qualquer zona de conforto. Os atores frequentemente rompem a quarta parede, afrontam a plateia e parecem perguntar o tempo inteiro até que ponto cada um ali está disposto a enfrentar as próprias lembranças. É um desconforto deliberado e absolutamente coerente com a proposta do espetáculo.
Entre as figuras mais intrigantes está a menina que, inicialmente, surge apenas contando números aparentemente aleatórios. Sua presença lembra quase uma alma penada, uma criança perdida entre os vivos e os mortos. Em determinado momento, ela oferece velas ao público, gesto simples que transforma a plateia em participante daquele ritual coletivo de memória.
Somente cerca de quarenta minutos depois a dramaturgia revela o verdadeiro significado daqueles números.

Eles nunca foram aleatórios.
São os mortos da pandemia de Covid-19.
A descoberta ressignifica completamente tudo o que havia sido visto até então. Cada número contado pela menina deixa de ser uma contagem e passa a representar vidas interrompidas. É uma das soluções dramatúrgicas mais inteligentes do espetáculo.
Outro momento de enorme impacto acontece quando profissionais da saúde entram carregando corpos enquanto entoam o Hino Nacional. A metáfora é dolorosa. O país canta seus símbolos enquanto mais de 700 mil brasileiros morrem vítimas da pandemia. Não há discurso panfletário. Apenas uma imagem forte o suficiente para provocar silêncio.
Ao longo de toda a montagem, uma pergunta retorna insistentemente:
“Estamos vivos ou mortos?”
Ela funciona quase como um mantra. Em outro momento, homens vestidos com macacões afirmam que “os homens honestos e os bandidos cabem na mesma vala”. A frase surge rapidamente, mas carrega enorme peso simbólico ao discutir igualdade diante da morte e a fragilidade das divisões construídas em vida.
Outros temas igualmente delicados aparecem de forma menos explícita, como a violência contra mulheres e os abusos sofridos por elas. A dramaturgia prefere sugerir em vez de explicar, permitindo que o próprio público complete as lacunas.
O clímax começa a se aproximar quando os personagens falam sobre o pequeno túmulo de uma criança.
“Que buraco pequeno dói demais.”
A frase é devastadora.
A partir dali, o espetáculo abandona qualquer possibilidade de distanciamento emocional.
Um dos pontos altos da encenação é o longo monólogo do ator que surge sem camisa, quase como uma entidade responsável por devolver o público ao presente depois de tantas camadas de sofrimento acumuladas. Sua frase: “Dá tempo de voltar a ser gente.”; talvez sintetize toda a esperança que ainda resiste dentro da dramaturgia.
Também merece destaque a atriz que interpreta simultaneamente a filha e a menina. Ela inicia a peça aparentemente como uma personagem secundária, mas cresce continuamente até assumir enorme protagonismo emocional. Sua expressividade corporal impressiona, especialmente nas cenas finais, quando já se sabe que sua personagem morreu antes mesmo dos oito anos de idade.
Existe ainda uma bela referência literária quando a menina menciona sua cadela Baleia, clara homenagem ao universo criado por Graciliano Ramos em Vidas Secas. Não se trata apenas de uma citação gratuita, mas de mais uma camada de memória brasileira incorporada à narrativa.
O abuso contra mulheres retorna em outro momento associado justamente à falta de ar, aproximando diferentes formas de violência do mesmo símbolo que marcou a pandemia.
Na sequência final, quando a menina relata que, no céu católico, seu pai permaneceu “lá embaixo brigando com Deus”, a montagem alcança sua cena mais emocionante.
O reencontro entre pai e filha morta emociona sem recorrer ao sentimentalismo fácil.
Quando ele afirma que ela está mais bonita morta do que ele vivo, ouvi suspiros ao meu redor e vi pessoas enxugando discretamente as lágrimas. Era impossível permanecer indiferente.
O encerramento é simples, mas profundamente humano.
O pai conclui que estar vivo é um milagre.
E talvez seja justamente essa a grande reflexão de “Encruzilhada Não É Beco”.
Nem tudo, porém, alcança o mesmo nível de excelência.
O extenso monólogo do proprietário da fazenda representa, para mim, o momento mais frágil da montagem. O sotaque construído pelo ator aproxima-se de uma caricatura do interior paulista e dificilmente convence quem nasceu ou vive na região de Rio Preto. Nosso falar cotidiano possui uma naturalidade que a interpretação não reproduz, contraste que se torna ainda mais evidente diante do sotaque adotado pela atriz que interpreta sua filha, muito mais próximo de regiões do Nordeste.
Também senti falta de maior precisão técnica em alguns momentos da sonorização. Pelo menos duas falhas nos microfones chamaram atenção. Em uma delas, o equipamento de um ator se desprende durante um monólogo; em outra, após a cena em que a menina é coberta pela palha, seu microfone aparentemente permanece desligado, obrigando a atriz a projetar a voz muito além do necessário. Em um espaço amplo como o ginásio do Sesc, esses pequenos problemas acabam interferindo na imersão.

Outro detalhe que pode ser aprimorado está no desenho de luz de Docini. Em alguns momentos, a iluminação demora alguns segundos para acompanhar o deslocamento do ator, fazendo com que partes importantes do texto sejam ditas praticamente no escuro. É um detalhe sutil, mas perceptível aos espectadores mais atentos.
Esses aspectos, entretanto, não diminuem a força do conjunto.
Com dramaturgia sensível, excelente direção, cenografia de grande impacto visual e um elenco extremamente comprometido, “Encruzilhada Não É Beco” consegue transformar o luto coletivo da pandemia em uma cerimônia teatral sobre memória, fé, território e permanência.
É uma peça que fala sobre morte durante quase todo o tempo.
Mas, paradoxalmente, termina celebrando aquilo que talvez tenhamos aprendido da forma mais difícil possível nos últimos anos:
continuar vivo é, de fato, um milagre.