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RESENHA CRÍTICA FIT: “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?” faz do supermercado a continuação da senzala. LEIA AQUI!

Por Jun Yassuda Júnior

Há espetáculos que utilizam a História como cenário. Outros fazem dela um personagem. “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?”, apresentado pelo Coletivo Negro na sessão das 21h desta quinta-feira (23), durante o FIT Rio Preto, escolhe um caminho ainda mais desconfortável: mostrar que talvez a escravidão nunca tenha ido embora. Apenas mudou de endereço.

Idealizada, concebida, escrita e dirigida por Jé Oliveira, a montagem parte livremente do conto machadiano Pai contra Mãe para construir uma narrativa contemporânea que atravessa séculos de violência estrutural sem jamais perder sua força poética.

O espetáculo inicia-se com um prólogo visualmente impactante. Os dois protagonistas movimentam um enorme plástico preto – semelhante aos sacos de lixo – repetidas vezes até que uma espécie de nuvem negra se forma diante dos olhos da plateia. Antes mesmo de qualquer explicação, o público entende que atravessará uma experiência pesada.

Já nesse primeiro momento fica evidente outro enorme acerto da montagem.

A banda.

Sob direção musical de Jé Oliveira e Guilherme Kastrup, os músicos permanecem atentos a cada pausa, a cada silêncio e a cada respiração dos atores. O instrumental deixa de ser simples acompanhamento e torna-se um verdadeiro personagem da narrativa, conduzindo emocionalmente o espectador durante as inúmeras reflexões propostas pelo texto.

A percussão merece um elogio particular.

Poucas vezes uma trilha dialoga tão organicamente com a cena. Os músicos mereceriam, tranquilamente, um espetáculo próprio no Rolê do FIT.

Quando surge uma negociação em vinténs, compreende-se que a diégese retorna ao Brasil escravocrata. Correntes, coleiras e sons metálicos constroem uma atmosfera sufocante que jamais romantiza aquele período histórico. A direção contemporânea de Jé Oliveira escolhe o caminho mais difícil: transformar a escravidão em algo indigesto.

E consegue.

Um dos momentos mais dolorosos acontece quando a personagem revela que sua bisavó foi “feita” para ser fértil. Em poucas palavras, a dramaturgia introduz um tema devastador: a violência sexual sistemática sofrida por mulheres negras durante a escravidão. O texto jamais descreve explicitamente esses abusos. Não precisa. O silêncio entre as frases faz esse trabalho.

Os longos monólogos do casal protagonista sustentam boa parte da força dramatúrgica da montagem. Cada ator possui seu momento de absoluto protagonismo, mas existe um terceiro elemento fundamental: o narrador.

Interpretado ora como contador da história, ora como uma espécie de capitão do mato cruel e autoritário, ele cria uma das escolhas dramatúrgicas mais interessantes da peça.

Ele também é negro.

Essa decisão provoca deliberadamente uma confusão hierárquica na cabeça do espectador. O opressor passa a dividir o mesmo corpo daqueles que historicamente foram oprimidos. A peça parece lembrar que estruturas de violência também sobrevivem através daqueles que acabam reproduzindo seus mecanismos.

Pouco depois, surge uma das imagens mais bonitas de toda a montagem.

A colheita do algodão acontece sobre a própria pele preta.

Enquanto isso, o ator percorre movimentos circulares incessantes, remetendo imediatamente ao trabalho repetitivo dos engenhos e à condição quase animalizada dos corpos escravizados. A metáfora é simples, elegante e profundamente eficiente.

“A vida é exigente.”

A frase ecoa durante toda a apresentação.

Sempre que as personagens parecem encontrar algum espaço para sonhar, o mundo as empurra novamente para sua realidade.

Nem mesmo a religiosidade surge como resposta definitiva.

Quando ouvimos que Jesus também levou chibatadas, instala-se uma espécie de pseudoesperança. Há conforto naquele paralelo, mas ele jamais é suficiente para apagar séculos de violência.

Visualmente, a montagem também impressiona.

As projeções dialogam constantemente com a dramaturgia, alternando registros históricos da escravidão, manchetes antigas e imagens de câmeras de vigilância contemporâneas. É uma escolha inteligente que aproxima o passado do presente sem precisar explicar absolutamente nada.

A transição para uma estação de metrô pode parecer distante da realidade rio-pretense, mas rapidamente torna-se universal. O metrô deixa de ser apenas São Paulo.

Ele representa o cotidiano de milhares de brasileiros negros.

A partir dali, a vigilância torna-se protagonista.

A direção faz questão de mostrar que pessoas negras são observadas o tempo todo.

Na estação.

Na rua.

Durante uma simples paquera.

Principalmente dentro de um supermercado.

A fotografia e as projeções utilizam câmeras de segurança como linguagem narrativa, colocando o próprio público na posição de quem vigia aqueles corpos. É uma decisão estética extremamente coerente com a proposta do espetáculo.

Ao longo da narrativa, o narrador continua funcionando como uma consciência cruel.

Enquanto os protagonistas tentam justificar suas escolhas, ele desmonta qualquer romantização. Quando Osvaldo insiste em afirmar que é um homem correto, o narrador lembra que, muitas vezes, sobreviver significou fazer aquilo que nunca deveria ter sido necessário fazer.

Chega então o clímax.

O supermercado.

Com poucos elementos cenográficos – ferros, estruturas metálicas e carrinhos que constantemente mudam de posição – a cena constrói um dos momentos mais devastadores desta edição do FIT.

Uma mulher negra passa a ser monitorada pelas câmeras.

O segurança intervém.

A violência explode.

E ela perde o bebê.

É difícil imaginar algo mais cruel.

Talvez justamente por isso a cena provoque tamanho impacto.

Quando a personagem afirma que, em quase 70% das vezes, sabe que está sendo seguida dentro de mercados e lojas, a ficção parece desaparecer. Já não estamos apenas assistindo a uma peça.

Estamos ouvindo um relato.

Em determinado momento, a dramaturgia menciona que alguns supermercados chamam determinados espaços internos de “senzalas”.

A simples existência dessa informação já provoca repulsa.

A peça não precisa aumentar o tom. O absurdo fala sozinho.

A partir daí, o espetáculo constrói sua reflexão mais poderosa.

Não importa apenas a bolsa.

Não importa apenas a mulher.

Importa o olhar lançado sobre aquele corpo.

Uma bolsa.

Uma mulher negra.

Um supermercado.

O clímax inteiro cabe nessas três imagens.

Quando surge a pergunta “Quanto vale um quilo de coração?”, o espetáculo atinge seu ponto máximo.

Logo depois, a personagem perde o filho e, imediatamente, lembra da própria avó.

Não é apenas um aborto.

É a interrupção simbólica do futuro.

A pergunta que permanece é inevitável:

A quem a sociedade permite sonhar?

O espetáculo encerra-se afirmando que “quem manda no mundo não muda.”

É uma frase amarga.

Mas também funciona como provocação.

Talvez o mérito maior de “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?” esteja justamente em recusar respostas fáceis. Durante cerca de duas horas, o Coletivo Negro transforma teatro em memória, memória em denúncia e denúncia em arte.

Saí do teatro com a sensação de que o espetáculo não pretende apenas contar uma história sobre racismo. Ele obriga o público a perceber que algumas senzalas nunca deixaram de existir.

Elas apenas trocaram as correntes pelas câmeras de segurança.

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